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 Fernando Paganatto
 Poeta, contista, romancista
 21 anos
 São Paulo-SP
 fernandopaganatto@yahoo.com.br

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    Fernando Paganatto
    Autor de Romance de Folhetim



    Romance de Folhetim - abril de 2006





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    *** Fim ***

    É novo aqui? Leia desde o primeiro capítulo! Você vai gostar!




    Escrito por Fernando Paganatto às 11h14
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    Capítulo L

    Os médicos nada puderam fazer. O corpo de Amílcar, tão debilitado por anos de cigarros, bebidas, trabalho estressante e noites mal dormidas, não mais suportou. Faleceu, solitário, na cama do hospital. Ninguém o acompanhava. Ninguém chorava por sua morte. Matilda só ficou sabendo algumas horas após o ocorrido. Estava em casa, dormindo tranqüilamente. Lívio e Amanda receberam a notícia somente no dia seguinte, quando Matilda ligara informando-os. Assim como sua vida, a morte tinha sido-lhe inexpressiva.

    Para velar o corpo, sua família aparece. São inúmeros parentes: primos, tios, tios-avôs, enfim, uma diversidade de gente. Soraia também estava lá. Era a mais inconsolada de todos. Chorava, por sobre o caixão, perguntando-se o porquê de tanta injustiça. Não conseguia entender os motivos que fizeram-lhes separarem-se. Como a vida poderia ser tão cruel? Não sabia, nem queria saber. Queria apenas chorar, mais do que a morte de Amílcar, mas a morte de sua vida, com amor, em família. Em contrapartida, Matilda lamenta. Pensa em todos os momentos que poderia ter tido com ele e entristece-se. Agora voltaria a trabalhar, a viver uma vida normal, levantando-se cedo e chegando tarde. Destruindo-se durante a semana e curtindo aos finais dela. Tudo voltaria ao normal novamente. Era um sonho bom demais para ser realidade.

    De todos os parentes o que mais fazia falta era o filho, Lívio. Ninguém conseguia perdoar o garoto pela sua ausência. Julgaram-no e condenaram-no, mesmo, a maioria que lá estava, sabendo do descaso e da inutilidade de Amílcar como pai. Não importava. Era feio demais, socialmente, que o filho não aparecesse no velório de seu próprio pai. A choradeira é rara, corre por entre as conversinhas que são, reservadamente, sussurradas entre os presentes. Todos lamentam a terrível morte de um homem tão jovem e aproveitam o assunto para por as notícias familiares em dia. Mas os salgados não estavam muito bons. Estavam frios e borrachudos. Pareciam terem sido assados na noite anterior. Todos comentavam.

    O caixão é levado para fora. Será enterrado. Uma procissão o acompanha. Ao longe, todos os participantes da cerimônia, vêem um casal aproximando-se. Era Lívio e Amanda. Soraia chora copiosamente mas seu filho não lhe presta ajuda. Amanda já tem um certo volume em sua barriga. Lívio apenas apresenta, antes de descerem o caixão para a cova, aquele que seria seu neto a Amílcar. Despedem-se, secamente, ignorando e horrorizando a todos os seus parentes que lá estavam. Mas sua tristeza não é para a sociedade. Por dentro, sente um vazio que só passa quando olha para sua namorada e lembra que terá um filho. Vão-se, assim como chegaram: silenciosos.

    Ao término da cerimônia, Soraia dirige para sua casa. Adentra-a, ainda com os olhos lacrimejantes. Está tarde já. Quase perdera todo o dia no enterro. Toma um banho para tirar o aroma funesto de seu corpo. Ainda desconsolada, veste-se lindamente. Maquia-se para disfarçar não só as marcas do infortúnio como, também, as do tempo. Sai, como de costume, para um badalado bar no meio da noite. Tinha de arrumar um cliente novo até que tivesse sua própria clientela. Não havia, até então, arrumado emprego e, na verdade, já tinha perdido as esperanças. E estava arrumando um bom dinheiro com suas saídas. Descobrira um modo prático de levar a vida.

    De volta à sua nova cidade, Lívio e Amanda estão em casa. Um pequeno apartamento que eles conseguiam encher de amor. Amanda vai para o quarto e deita-se. Sem dizer nenhuma palavra, Lívio junta-se à ela, recostando suavemente sua orelha ao ventre dela. A felicidade confundia-se com a tristeza do momento, e escorriam em suas lágrimas.

    *** Fim ***



    Escrito por Fernando Paganatto às 03h24
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    Capítulo XLIX

    Todos os dias, agora, Amílcar chorava. Não pela vida que estava perdendo, mas por toda aquela que já havia perdido há tempos. Menos, também, pela dor que sentia em seu corpo e mais pela dor da alma. Seu filho, única companhia que tinha em seus últimos momentos, havia deixado-o. Não o culpava. Talvez o limiar da vida tenha trazido-lhe a lucidez necessária para ver o quanto errara durante o crescimento de Lívio. Havia sido pai ausente, nunca fora amigo dele, experiências de vida, então, nunca havia passado. Sentiu-se tão incompetente. A tristeza era, naquele momento, sua acompanhante.

    No ônibus, Lívio e Amanda dormem juntos. Sentiam-se bem, um colado ao outro. O calor de seus corpos dava uma sensação materna de proteção que ambos curtiam. Em um solavanco, Lívio acorda. Fica alguns minutos reparando a beleza de Amanda. Concentra-se em sua visão e tenta olhar para o futuro somente. O passado, deixaria onde deve ficar: para trás. Confia que, aquele passo que havia dado, seria o início de uma vida maravilhosa. Amanda acorda, também, e olha-o, com um meigo sorriso, nos olhos.

    Um mês passara-se desde a mudança. A loja onde Lívio trabalhava havia recebido-o muito bem e ele sentia-se à vontade lá. Amanda, por sua vez, adorara seu curso e a faculdade. Tudo estava indo tão bem que ele nem lembrava mais a situação caótica que deixara ao partir. Mas existem certos momentos na vida em que perguntamo-nos se o que acontece é por acaso ou se a Sorte teria um plano maquiavélico para cada um de nós.

    Volta Lívio para casa após um dia de trabalho e lá encontra Amanda. Ela estava com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas. O rosto, enrubescido. Ele sentiu que ela queria falar-lhe algo, mas não conseguia. Sentou-se a seu lado, no antigo sofá de dois lugares. Sem dizer uma palavra, pegou em sua mão. Amanda desaba em lágrimas. Abraçam-se. Lívio já imagina que algo de ruim acontecera a seu pai. Pensou até que ele havia morrido e deu tempo de se culpar pelo descaso nos últimos dias. Mas Amanda resolve contar. Toma fôlego e fala: Amílcar havia piorado, mas ainda estava lúcido. Não lhe restava muito tempo de vida.

    Fim de semana e o jovem casal está de volta à capital. Lívio tem mantido a calma, mas Amanda está uma pilha de nervos. Sente-se culpada por ter afastado pai e filho nos últimos momentos e reza para que dê tempo de resolverem-se. Não consegue pensar em outra coisa. Estava mal por causa daquilo tudo, não dormia direito há duas noites, não comia bem, sentia enjôo, imaginava estar com gastrite ou algo parecido. "Péssima hora para arrumar uma doença." – pensava. Chegam ao hospital. Lívio vai direto da recepção ao quarto de seu pai. Ele está lá, sozinho, dormindo, provavelmente sedado. O casal entra. Sentam-se ao lado da cama. Um médico vem ao quarto para verificar os sinais vitais de Amílcar. Lívio sai com o doutor para conversar.

    Enquanto conversam, Amílcar acorda e depara-se com Amanda. Sorri para ela, já imaginando quem seria. Cumprimentam-se e apresentam-se. Conversam. Amanda conta como a vida deles está boa, tranqüila, de como se amam, de que têm enfrentado dificuldades, mas o amor de um pelo outro tem sido um elo fortíssimo. Conta, também, de seu receio em ter afastado-o de seu filho. Amílcar não concorda. Está feliz que Lívio tenha seguido seu coração. Mesmo assim, Amanda não convence-se. Fala de todas as dificuldades que tem tido. Diz que nada tem estado normal, sono, fome, nem menstruação lhe estava mais como antes, regular. Conta em certo tom de embaraço, mas não sente-se desconfortável. Amílcar passara-lha uma imagem protetora, algo muito propício à falta que Amanda sentia de um pai. Ele pergunta-lhe se também tinha enjôos. Ela responde que sim. Com um sorriso, aconselha que ela fizesse um teste ali, no próprio hospital. Lívio entra e fica feliz ao ver os dois conversando. Amanda, empalidecida, deixa que eles fiquem à sós por algum tempo.

    Pai e filho pouco conversam. Não há palavras que traduzam seus sentimentos. Porém, ambos sabiam que o outro também tinha uma miríade incompreensível de pensamentos. Amílcar resolve contar a Lívio um segredo que tem guardado consigo há tempos. Agora que estava perto de sua morte, podia dizer sem medo de culpar-se. Queria rever Soraia. Sentia falta dela. Lívio entende o recado e vai chamá-la.

    Ela vem. Aflita com a notícia, e desnorteada com a situação. Encontra seu filho no quarto do pai, que deixa-os para que conversassem. Não troca palavras com ela. Soraia entende. Senta-se ao lado de Amílcar que pega em sua mão. Ela, com tristeza no olhar acaricia-lhe. Apenas duas frases são ditas durante todo o tempo que ficaram juntos: "Eu ainda te amo." – disse Amíclar. "Eu também." – respondeu Soraia. De resto, o silêncio falou por si. Ficaram quase uma hora olhando-se sem entender tudo aquilo. Enquanto seus pais conversam, Amanda vem a seu encontro. Havia sumido por algumas horas desde que saíra do quarto, e Lívio já começara a preocupar-se. Mas ela vem devagar, com um envelope em suas mãos. Havia feito um exame de sangue de urgência. Dentro, o resultado maior do amor do casal.



    Escrito por Fernando Paganatto às 08h43
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    Capítulo XLVIII

    A ansiedade para ver o resultado de sua prova deixa Amanda sem dormir. Meio zonza e ainda com olheiras, liga seu computador a fim de saber se havia passado ou não. A máquina demora tanto para iniciar-se que Amanda pega no sono. Cochila por sobre seu teclado. Acorda ao ouvir o apito estridente de aviso de seu computador. Conecta-se à internet e vai direto ao site do vestibular. Demora para entrar. Certamente estava congestionado. Mas ela não podia esperar até mais tarde para saber. Aquilo lhe corroía, lhe tirava a fome, o sono, lhe dava prisão de ventre, dor de cabeça, não podia continuar assim. Resolve ficar tentando.

    Lívio está saindo para seu trabalho agora. Como suas aulas já haviam terminado, era um cotidiano mais tranqüilo. Podia ir com mais calma, aproveitando o pouco tempo de sossego que tinha durante o dia, que durava o exato percurso de sua cama à porta da loja onde trabalhava. Ao entrar em sua respectiva sala, é recebido por seu supervisor que lhe traz notícias sobre sua possível transferência. Lívio entra na sala dele e conversam por alguns minutos com a porta e as caras fechadas. Todos do setor ficam curiosos para saber o que passava-se naquela conversa. Ao sair, Lívio está com feição preocupada. Parece pensativo.

    À noite, no hospital, Amílcar recebe a visita costumeira de seu filho. O clima no quarto é pesado. Amílcar sente muita dor, está pálido. A medicação não faz mais tanto efeito como nas primeiras semanas. Lívio, por sua vez, absorto, não fala nada. Só permanece ao lado dele. Havia conversado com Amanda, ainda no escritório. A notícia de que ela passara no vestibular uniu-se, coincidentemente, como uma brincadeira do destino, à de que havia uma vaga na preterida loja no interior, recebida de seu supervisor. Seu pai, agonizava, e Lívio já sentia-se infeliz com a possibilidade de frustrar-se tomando uma decisão que lhe traria arrependimento. Pensara durante a tarde inteira sobre o assunto que já estava mais do que batido em sua cabeça. Chegara a uma conclusão somente: não havia meio termo. Tinha de decidir entre seu futuro ou os últimos dias de seu pai.

    Soraia acordara tarde. Já passava do meio-dia quando ela dignou-se a levantar de sua cama. Passou o tarde inteira sentada em frente ao aparelho de televisão. Sua cabeça doía assim como seu corpo. Parecia que havia enfrentado uma maratona na noite passada. Não tinha vontade de fazer nada. A casa estava suja, empoeirada, havia roupas para lavar e para passar. A pia, cheia de louça suja, cheirava mal. Mas estava cansada. Já pela noite, tomando um sopa especialmente designada a um programa de dieta, vendido pela tevê, que Soraia havia adquirido há uns dias, sente falta de alguma coisa. Não sabe bem o que é, mas sabe que algo não está em seu lugar correto. Olha em volta, pela sala, até em sua bolsa, mas não percebe a falta de nada especial. O sono toma-lha aos braços. Vai dormir, deixando seu prato sujo por sobre o braço do sofá.

    Ao abrir a porta, Lívio sente-se aliviado por não encontrar sua mãe. Vê a bagunça que ela estava deixando na casa e sente raiva dela. Com fome, procura, mais uma vez, algo para comer. Acha somente uma panela com aquela insossa sopa dietética. Tem vontade de chorar, mais pelo ódio do que pela fome ou pela tristeza. Toma um copo grande de água e vai deitar-se. A barriga roncando lhe dava até certo enjôo.

    Soraia desde então, notara uma leve mudança em algo na sua casa. Alguns dias passaram-se e, apesar de não saber o porquê, seu filho tornara-se diferente em relação a ela. Não ligava muito, afinal, ele já era bem crescido para ficar com manhas por aí. Mas que a incomodava, isso era inegável. Cada vez mais silencioso, menos próximo, menos presente. Acordava de fim de semana e não via sua cara. Ele ficava trancado em seu quarto o dia inteiro, todos os dias. Soraia achou que era apenas uma fase, que logo passaria, quando, para sua surpresa, em uma corriqueira tarde que acordara, encontra, sobre a mesinha de centro da sala, um envelope. Dentro, uma carta remetida a ela dizia:

    "Mãe,

    Estou indo morar com Amanda no interior. Consegui emprego lá e ela vai estudar em uma universidade. Portanto, não precisa mudar seu comportamento por minha causa. Continue despreocupada. Estou seguindo minha vida e estou muito feliz. Não falo a cidade ainda pois não quero que você, ao perceber que ficou sozinha, venha atrás de nós para nos importunar. Mandarei cartas, assim que achar necessário, contando como estão as coisas por lá.

    Espero que você não tenha um surto de mãe e sinta minha falta de repente. Mas também não consigo até hoje, entender o porquê de ter me colocado no mundo. É muito triste não poder contar com sua própria mãe. Que pena. Podia ter sido mais feliz nossa relação.

    Cordialmente,

    Lívio."



    Escrito por Fernando Paganatto às 07h58
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    Capítulo XLVII

    Mais uma noite no hospital com seu pai. Lívio já não dorme mais. Chega em casa tarde e ainda vai jantar e tomar seu banho. Só consegue deitar-se de madrugada, e seu sono é muito curto pois demora a dormir. Não descansa muito bem já que seu corpo não relaxa. Tem sonhos durante toda sua noite, sonhos bons, de esperanças, com Amanda, e pesadelos com a morte de seu pai e o descaso de sua mãe. Mas nessa noite, Lívio não agüentou e adormeceu na desconfortável poltrona do leito hospitalar. Seu pai, sedado a maior parte do tempo, nenhuma reação produzia. Apenas lágrimas escorriam por seus olhos. Lívio adormeceu porque, além do cansaço de uma semana inteira de correria, não havia ninguém com quem conversar. Nem sinal de Matilda, mais uma vez. Pelo quarto dia consecutivo ela não havia aparecido.

    Em casa, ela pensa no seu fim de semana. No sábado, almoçará com sua amiga, com quem pode confidenciar seus medos e suas angústias. Depois, passará no hospital para saber do estado de Amílcar. Então, irá até a casa de sua mãe, passar o resto do dia. Não sentia-se culpada por nada. Achava que apenas duas horinhas por semana eram suficientes para que seu marido ficasse satisfeito. Além do mais, ela sabia que ele praticamente só dormia durante o dia. Sentia pena pela dor de Amílcar, mas, como nada podia fazer, preferia manter-se afastada. Era menos sofrimento.

    Soraia, em sua casa, prepara-se, mais uma noite, para sair. Acha normal a porta do quarto de seu filho ter ficado trancada o dia inteiro. Nem preocupa-se. Era óbvio que Lívio já havia chegado. Estava, decerto, dormindo já, pois que afinal, ela o achava um adolescente um tanto vagabundo. Mas na verdade, ela nem pensa muito nisso. Está preocupada com o local onde iria. Era bom que não fosse sempre aos mesmos lugares, para que conhecesse pessoas novas. Por isso, a cada noite, ela arruma-se com mais maestria. Todas as suas roupas "de festa" estavam sendo usadas. E bem usadas.

    Lembra que terá de cozinhar pela manhã, coisa que odiava fazer. Havia jantado todo o resto de comida que há três dias descansava na geladeira. Não sobrara um grão de arroz. Nem nas panelas, tampouco na dispensa. Mas, não se importava com isso. Amanhã, após acordar, certamente já pela tarde, iria ao mercado e faria compra. Bem como cozinharia. Não iria estragar sua noite com preocupações banais. Afinal, alguém tinha de botar comida naquela casa.

    Ao acordar, Lívio depara-se com seu pai também acordado. Pergunta-lhe como se sente. "Ah, filho. Eu sinto que essa coisa tá me comendo por dentro. Aos poucos, sabe?" – balbucia de resposta, Amílcar. Lívio olha a hora. Já perdera a aula mesmo. Ficaria mais um pouco antes de voltar para casa e trocar-se para ir trabalhar. Põe sua mão por sobre o braço, cheio de canos e fios, de seu pai. Sente a dor física dele em sua alma. Os olhos cerrados e umedecidos indicam que não está errado. Vai chamar um médico. Seria melhor que a sedação fosse aumentada.

    Após ficar um bom tempo com seu pai, Lívio está dormindo no ônibus enquanto vai para casa. Desperta muito próximo a seu ponto, com medo de ter passado-o. Assustado, desce. Ao chegar percebe, novamente, a falta de sua mãe. Olha em seu quarto e sua cama está arrumada, como se ela não tivesse dormido lá. E não dormira realmente, e Lívio desconfiava disso. Mas, não tinha tempo para pensar em sua mãe. Correndo toma um banho e se arruma indo, logo em seguida, direto para a cozinha fazer sua primeira refeição das últimas doze horas. Não encontra nada na geladeira. Pensa em fazer algo rápido, um macarrão, um ovo frito, mas não acha nada. Sua casa está às moscas. A barriga ronca. Se não correr, não conseguirá comer em lugar nenhum antes de começar seu expediente. Sai, emputecido e esfomeado.



    Escrito por Fernando Paganatto às 20h48
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    Capítulo XLVI

    O ônibus andando mais devagar que o normal: é essa a sensação que Lívio tem. Percebe-se aflito pelo tremer incessante de sua perna direita. Respira fundo a cada farol onde sua condução é obrigada a parar. A distância pequena entre o hospital e sua casa não o impede de achar interminável tal caminho. Precisava ver como seu pai estava. Decerto, nada bem, ou não teria largado sua lua-de-mel. Isso era bem claro para Lívio, que o conhecia bem. Está chegando. No próximo ponto descerá.

    Matilda está preocupada. Anda apressada por entre os corredores. Os olhos não vêem nada ao seu redor. Só pensava nas conseqüências de seu ato. Quantas calorias tinham naquele petit gateau que agora seriam transformadas em quilos a mais? Certamente muitas. Por isso caminhava rápido. Precisava perder aquelas calorias de qualquer maneira. A preocupação era tamanha, que nenhuma loja mais lhe chamava a atenção. Nem as sapatarias com promoções imperdíveis. Seu celular toca. É Lívio. Queria falar com ela, mas Matilda não pode naquele momento. Estava esbaforindo e não podia parar. Diz que está ocupada e desliga. Ele só queria deixá-la a par da situação de Amílcar.

    Amanda está de um lado para o outro em seu quarto. Lívio dissera-lha que ligaria assim que chegasse do hospital. Ainda não ligara, portanto, algo havia acontecido. Nem percebe que as horas ainda não passaram. A eternidade que parecia ter sido aquela espera não passara muito mais de uma hora. Mas Amanda tinha uma sensação de aperto em seu peito. Estava aflita e não conseguia imaginar uma estado de normalidade.

    Lívio observa seu pai, que dorme no leito do quarto. Tem pena dele. Não pelo sofrimento da doença, mas pelo fato de saber que hoje, ele certamente estaria se arrependendo da forma como levou toda a sua vida. Tinha dó de seu pai e isso o deixava triste. Afinal, o pai era para ser o herói e, agora, era indefeso e frágil, tanto na saúde como no espírito. Vê os olhos de Amílcar abrirem-se. Se anima a conversar com ele:

    - Acordou, pai? Tá se sentindo bem?

    - Oi, filho. To melhor, sim.

    A esse breve diálogo segui-se um silêncio. Ambos sabiam ter tantas coisas para falar que elas engarrafaram-se nas gargantas. A tristeza agora era dupla. "O que o médico disse?" – pergunta Lívio. "Que foi só um susto. Tá tudo bem já." – responde Amílcar, apesar de saber que seu filho não lhe dera crédito. Sabia também que mentia. Mentia, porém, não só para Lívio. Mentia para si mesmo, com a intenção de tirar de sua cabeça o pouco tempo de vida que seu médico lhe prevera. Um período curto de poucos meses, somente. Isso seria tudo o que tinha para ter a vida que não havia vivido até então.

    Já é tarde da noite quando Lívio volta para a casa. Percebe, logo ao entrar, um silêncio solitário. Estranha. O forte perfume de sua mãe, pairando ainda no ar denuncia que ela havia acabado de sair. "Onde foi tão tarde? É louca." – pensa ele. Vai para seu quarto e já está deitando na cama quando olha, despropositado, seu telefone. Tem um estalo e lembra-se de Amanda. Apavora-se. Liga de imediato para ela. O celular ligado significa que ainda não havia dormido. Atende. Começam a conversar docemente.



    Escrito por Fernando Paganatto às 23h39
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    Capítulo XLV

    O mais novo casal segue, feliz, em sua viagem de lua-de-mel. Amílcar sente-se mais aliviado com todo o processo matrimonial findado. Agora queria curtir seus últimos momentos da maneira mais intensa possível, com muita paixão, prazeres, e pouco cuidado com dinheiro. Gastaria muito. Em tudo que lhes chamasse a atenção. Para ele e para ela, é claro. Já no avião, champanhe gelado brinda o inicio das comemorações. Um hotel luxuoso, em um paraíso tropical, tudo regado a bebidas finas e frutos do mar frescos, desenhavam um cenário perfeito para várias horas de erotismo e orgia. Era tudo o que ele queria para seu dias finais.

    Ao chegarem no aeroporto, foram recebidos pelo motorista do carro, alugado junto ao quarto do hotel. No caminho, uma pequena demonstração do luxo que seria aquela viagem: carro confortável, com bancos de couro, climatizado, com televisores independentes. Matilda estava vislumbrada com aquilo tudo. Jamais em sua vida havia estado perto de tanta abundância. Mas o que mais a deixaria boquiaberta, estava por vir. Já na entrada, portas de vidro escuras escondiam o majestoso salão da recepção. Cinco estrelas decoravam a parede de um lado da porta e do outro, o segurança fazia as honras do hotel, abrindo-a. Um tapete vermelho levava até a parte interior do hotel onde, em fina decoração com cores frias, que ajudava ao ar-condicionado a amenizar o calor de fora, os recepcionistas sorriam brancos sorrisos para os hóspedes. Após o check-in, sobem, pelo silencioso e moderno elevador, até o décimo oitavo andar, onde havia sido feita a reserva. A vista lindíssima, cobria grande parte da orla marítima. A areia branca, fina, contrastava com o azul turquesa do mar. Passaram alguns minutos contemplando a beleza natural.

    Amílcar quer aproveitar outras coisas também, mas está sentindo-se cansado. Diz a Matilda que ira deitar-se um pouco, para descansar da viagem. Dorme. Acorda sentindo muita dor. Seu coração quase salta-lhe pela garganta. Está branco, ao mesmo tempo, não consegue respirar direito. Toma um analgésico. Matilda não estava lá. Decerto havia ido aproveitar a praia. Era bom que não o visse neste estado. Poderia por toda a viagem a perder. Não sente melhora. Toma mais dois comprimidos e uma dose de uísque. Meia hora passa até que ele adormece novamente. Ao acordar, não estava mais em seu quarto de hotel.

    O movimento é grande e Lívio tem trabalhado bastante. Quanto mais vendas a loja fazia, mais movimentava o departamento onde ele trabalhava, portanto, estava ficando louco com tanta coisa ao mesmo tempo. Mas achava bom. O telefone de sua mesa toca. É sinal que estão transferindo alguma ligação. Certamente, era alguém de sua família querendo falar-lhe. Era Amanda. Diz a ele que já inscrevera-se no vestibular. Lívio abre um sorriso. Não pensa mais na doença de seu pai, afinal, ele viajara e agora, tudo parecia tão distante dele. Ao desligar, ele já faz planos e previsões. Tinha, no fundo do coração a certeza de que ela conseguiria, e que juntos, iriam para outra cidade, criar vida nova. Mas não dura muito sua felicidade e despreocupação. O telefone toca novamente e Lívio, pensando ser Amanda que esquecera de lhe dizer algo, atende com gosto. Tem uma desagradável surpresa quando percebe que era Matilda ao telefone. Ela avisa-o sobre o acontecido. Seu pai havia passado mal e foi internado. Estava sendo transferido para um hospital em sua cidade.

    Percebendo a situação, Lívio não rende mais no trabalho. Vai até o final do expediente empurrando as complicações. Não tem cabeça para resolver nada. Só consegue pensar que seu pai estava muito próximo do fim. Sai da loja, tristonho, andando por entre os antigos prédios do centro da cidade. Observa as pombas, os ônibus, as pessoas apressadas, os mendigos, as crianças na rua, as folhas ao chão, sendo levadas pelo gelado vento que sopra no começo da noite. A tudo, olha com seriedade. Suas sobrancelhas pesam-lhe toneladas. Sente em sua garganta, o nó que o tumor causava a seu pai. Sabe que uma parte de si está morrendo junto com ele.



    Escrito por Fernando Paganatto às 23h54
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    Capítulo XLIV

    Já em casa, Soraia chora solitária o rumo desastroso que sua vida tomara. Está no quarto despindo-se para aproveitar uma ducha de misericórdia. Como conseqüência, esvazia sua bolsa. Nela encontra dinheiro. Não era algo que a preocuparia, pelo contrário, mas não lembrava de onde vinha aquela quantia. Sentou-se na cama, maço à mão pôs-se a lembrar de tudo o que fizera ontem. Agora, sabia bem o que havia combinado com o rapaz desconhecido com quem saíra. Ri, de si mesma e da situação.

    Lívio volta para a casa confiante na capacidade de Amanda. Tudo havia passado tão rápido e já era em tempo de ele tomar decisões. Mas sabia bem o que queria. Não fosse a doença surpresa de seu pai, tudo estaria caminhando perfeitamente. Porém, acredita na saúde dele, afinal: "Vaso ruim não quebra fácil." – pensa consigo. Lembra-se, ainda no ônibus, que terá de encarar sua mãe, agora sabendo que sua partida era muito provável. Sentiu um misto de medo, vergonha, anseio, angústia, o que acabou por lhe dar mais força. Em contra partida a seus sentimentos de culpa perante sua mãe, imagina-se casando com Amanda. Aqueles lindos olhos castanhos, brilhantes, olhando-o fixamente e dizendo "Sim", com um maravilhoso sorriso nos lábios.

    Na espaçosa sala, Matilda sente-se uma rainha. Amílcar, desleixado com a vida (e, conseqüentemente, com suas finanças) apenas observa o vislumbre de sua futura esposa. Ela olha-o com alegria. Amílcar entende. Ao perguntar, o corretor, se haviam gostado, ele lhe responde que ficariam com o apartamento. "Um ótimo negócio!" – diz o vendedor. Amílcar não acha. Mas também, não liga. Só queria que toda aquela palhaçada de procurar imóvel acabasse. E além do mais, não ficaria bem casar-se sem uma residência. Era perfeito para a situação: tinha espaço, o preço era razoável, estava desocupado e não necessitaria de reforma alguma. A mudança, começaria a ser feita pela manhã, assim, ao chegarem de lua-de-mel, seria somente ajeitar a seus gostos os móveis. Não estava nervoso com a iminência do casamento. Queria poder aproveitar as noites de núpcias rapidamente, enquanto ainda lhe restava saúde.

    Ele deixa Matilda em sua casa e volta para seu lar provisório. Já era tarde e ambos acordariam cedo. Ele, para comandar a mudança na casa dela, e ela, para arrumar-se: cabeleireiro, manicure, vestido etc. Ainda que simples a cerimônia, Matilda queria estar estonteante. Imagina o mundo de convidados que iriam para a festa, previamente organizada em um buffet, todos estariam muito ansiosos para vê-la. Porém, há um que não sente-se muito feliz pela festa. Lívio pensa mais em seu futuro do que no casamento de seu pai, ainda mais porque sabe que um amor, como o dele e de sua mãe, não termina de uma hora para outra como acabara o casamento deles. Mas, Amílcar já era adulto. Sabia o suficiente para decidir-se. E ele também sentia-se capaz de decidir sobre seu próprio futuro. Por isso certifica-se de ser, o planejado, exatamente aquilo que gostaria. A certeza vem-lhe.

    Amílcar já está suando, nervoso com as insubordinações dos carregadores. Dói-lhe a cabeça, mas está tudo quase no fim. Olha o relógio e vê ainda estar dentro do tempo. Quando terminam de levar ao caminhão todas as caixas e móveis de Matilda, Amílcar volta para a casa de seu amigo pela última vez. Vai arrumar-se. Após tomar um banho demorado e perfumar-se, veste seu bonito terno reservado para ocasiões especiais, uma gravata comprada justamente para seu casamento e sapatos lustrosos. Arruma o cabelo com gel, livrando seu rosto, devidamente barbeado, de qualquer fio rebelde. Entra em seu carro e vai pegar Lívio.

    Ao chegarem no salão, o juiz já encontra-se lá. Bem como os padrinhos, que seriam as testemunhas. Estão adiantados, é verdade, mas Amílcar quer acabar com aquilo o mais rápido possível. Matilda, em cima da hora, chega. Ela havia conseguido, está linda com um vestido que, ao mesmo tempo que é discreto, delineia seu corpo perfeitamente. Apresentam-se ao juiz que inicia a cerimônia.



    Escrito por Fernando Paganatto às 23h39
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    Capítulo XLIII

    Soraia acorda de bem com a vida. Ao abrir os olhos, um café da manhã caprichado está posto ao lado da cama. Repara ser tudo de bom gosto no quarto. Começa a deliciar-se no desjejum quando percebe as horas. Lembra-se de que precisava ir para o trabalho! Um súbito desespero toma-lha. Começa a vestir-se rapidamente, no instante em que seu parceiro, de quem agora não lembrava o nome, aparece no quarto. "Gostou do café? Ué, mas já vai?" – espanta-se ele. "Desculpa, querido, mas eu tenho que ir. Tenho horário." – explica Soraia. "Tá bom, então. Eu te ligo. O combinado está na sua bolsa. Tomei a liberdade." – despede-se. Ela estranha. Não lembra de ter combinado nada com ele, mas no calor da pressa, nem tem tempo de verificar o que eles haviam tratado. Precisa ir para a casa, tomar um banho, trocar de roupas e seguir voando para a empresa. Já estava em cima da hora e sua cabeça doía.

    Apesar da medicação tomada para a tuberculose, seu estado de saúde deteriorava-se, mais pela falta de ânimo frente à dificuldade de seu tumor. Sabia ter poucos meses de vida. Mas Amílcar não deixava que Matilda percebesse. Ela, com sua perspicácia sherlockiana, jamais desconfiaria de que seu rosto abatido representasse sua breve vida. Sentia-se mal, mas não deixaria transparecer por nada desse mundo seu estado moribundo. Tinha de estar feliz, bonito para o fim de semana. Casariam, ele e Matilda, e teriam alguns dias de folga dos serviços para a lua-de-mel. Tentava não pensar nisso tudo, pois deixava-o ansioso. Não era uma boa ansiedade. Era incômoda. Portanto trabalhava concentrado.

    Após muitos minutos de seu horário de entrada – beirando uma hora de atraso – Soraia chega à empresa. Com os cabelos molhados, sem maquiagem, olheiras e batom borrado, corre pelo corredor sobre seus sapatos de salto alto. Ao chegar em sua sala, na sua cadeira, sentado observando os últimos resultados de suas vendas, está seu chefe, Senhor Gonçalo. Pela cara dele, Soraia sabia não vir boas notícias.

    Amanda liga para Lívio para contar-lhe que inscrevera-se no vestibular. Dali a alguns meses faria a prova e poderia ser o começo da mudança. Ele fica muito feliz, certamente. Era o que queria. Mas a situação de seu pai não lhe deixa os pensamentos. Sabia que cada dia que se passava, era um a menos com Amílcar. Os sentimentos entram em conflito dentro dele. Desliga. Precisa voltar ao trabalho. Tenta não pensar nas coisas do mundo de fora. Fará isso em casa, tranqüilamente, depois de um banho quente.

    Voltando para casa, Soraia está deprimida. A empresa onde trabalhara há tantos anos, a qual dedicara-se por completo, que crescera junto com ela, agora lhe descartava como um objeto em desuso. Sabe que fora displicente nesses últimos tempos. Chegara atrasada algumas vezes, vendera pouquíssimo, mas e toda sua história, não contava? Não contou. Fora enxotada de lá como uma inútil. Chorava ao volante de seu carro enquanto andava, vagarosamente, pelo transito calmo daquele horário diferente. Pensa em seu futuro, como seria, como faria para arrumar um emprego novo, agora que já não era mais uma bela moça, mas uma senhora. Chora mais ainda por achar que sua vida está entrando em fase terminal. Não vê tempo para fazer mais nada: arrumar outro emprego, outro marido, sair daquela casa "amaldiçoada". Percebe que ruíra, em sua frente, toda a vida hipócrita qual ela construíra durante toda sua existência. Arrepende-se de tudo e deseja poder voltar no tempo. Chora mais, por saber ser impossível sua única solução.

    Na empresa onde Soraia trabalhava, Senhor Gonçalo conversa, explicando a situação, com Matilda. Ela mostrara-se tão preocupada com a empresa ao contar-lhe sobre os abusos de Soraia que era o mínimo que ele podia fazer. Matilda sente uma certa satisfação naquilo tudo. Havia ganhado o duelo, sem sombra de dúvidas. Sentiu-se mais completa quando viu Xavier passando e lembrou de seu sucesso em convencer o rapaz a não procurar Soraia novamente, pois que, afinal, ele era jovem e bonito, ela então que deveria vir atrás dele. Agora Matilda está em paz para pensar em seu casamento. Tudo já estava programado, mas ela sonhava alto. Sonhava com a vida cheia de viagens que teria, cheia de luxo, compraria jóias que nunca teve. Sonhava ignorando a situação mediana na qual se encontravam as finanças de Amílcar. Claro, não tinha esta noção já que ele, fazia questão de demonstrar seu poder econômico cada vez que saíam juntos. Além do quê, não era qualquer pessoa que, hoje em dia, podia comprar uma aliança daquelas, portanto, era de se esperar uma vida confortável. Matilda pensava até em parar de trabalhar. Por seus cálculos, não precisaria mais. Mal sabia a brincadeira de mal gosto que o destino programava para seu futuro.



    Escrito por Fernando Paganatto às 07h07
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    Capítulo XLII

    Há algumas semanas que Amílcar não vê Lívio e, talvez por causa de seu destino descoberto, isso agora lhe faz falta. Liga para a loja onde Lívio trabalha, sentindo-se aliviado por não ter de falar com Soraia para contatar seu filho. Chamam-lho. Ele atende. Amílcar propõe que os dois jantassem juntos, diz que precisava conversar, que sentia falta de um papo de homem para homem e achava que já estava mais do que na hora. Lívio, a contra gosto, aceita o convite. Afinal, qualquer oportunidade de economizar alguns trocados estava sendo bem-vinda. Marcam às seis horas da tarde em frente à loja de departamentos onde Lívio trabalhava. Teriam uma hora de conversa íntima porque depois, Lívio tinha de voltar e terminar seu expediente.

    O carro de seu pai encosta. Ele entra e cumprimenta-o formalmente. Não pareciam pai e filho. O restaurante onde Amílcar os leva é bem simples. Sabe que Lívio preferia assim. Na mesa, para dois, escutava-se baixinho o som de uma rádio com músicas antigas e lentas. O ambiente ficaria monótono não fossem as peripécias que os garçons eram obrigados a fazer por causa do salão abarrotado com mesas e cadeiras, mal sobrando espaço para caminhar. Pedem, os dois, picanha grelhada com fritas, um prato apreciadíssimo por ambos, e, após a chegada das bebidas, Amílcar começa a puxar assunto:

    - E então, filho? Como anda o serviço? Tá gostando?

    - To sim, pai. O lugar é legal, as pessoas também. Eu me dei muito bem lá.

    Após alguns assuntos frívolos do cotidiano de cada um, Amílcar resolve enfrentar o motivo do encontro de frente, já com os pratos servidos:

    - Lívio, preciso te contar uma coisa. Papai não tá bem.

    - Como assim? Não tá bem como o normal de sempre ou aconteceu alguma coisa?

    Nesse momento, Amílcar percebe que não havia mais volta e explica a Lívio todos os pormenores de sua doença. Estava com um tumor maligno em estado avançado e não sabia quanto tempo de vida ainda teria. Lívio, por um instante ri, imaginando, ou querendo crer, que seu pai fazia-lhe uma chantagem emocional. Continua comendo e, cada vez mais nervoso, treme os talheres. Larga-os. Toma conhecimento, agora, da situação, e seus olhos enchem-se de lágrimas. Não consegue mais falar, comer, nem ao menos olhar para seu pai. Tentava lembrar de alguma vez que ele havia lhe trazido coisas boas, mas não conseguia. Agora, mais uma vez, Amílcar destruía uma parte de Lívio, culpa de uma vida desregrada e cheia de irresponsabilidade. Tem raiva dele. No fundo, tem é medo de perder a oportunidade de ter um pai algum dia. Um pai de verdade, que o amasse e demonstrasse isso. Um pai que lhe desse carinho, atenção, proteção, instrução. Vê que não haverá tempo suficiente e lamenta-se. Pai e filho agora choram pela relação cretina que criaram e não tinham mais como reverter.

    Amanda está em casa separando a documentação necessária para sua inscrição no vestibular, quando o telefone toca. Era Lívio, notoriamente abalado. Ela tenta acalmá-lo mas, ao tomar conhecimento do porquê de sua angústia, solidariza-se. Chora, muito, tentando não deixar que Lívio percebesse. Tinha de ser forte agora, para ajudá-lo. A tristeza umedecia de lágrimas a conversa balbuciada no telefone. Ninguém conseguia falar e ambos contavam com a vontade do outro de apenas estar ali.

    Soraia está em casa arrumando-se. Vai sair. Não se importa que amanhã terá de trabalhar, já era uma mulher responsável o suficiente para acordar, após uma noitada, no horário certo para chegar em seu serviço a tempo. E depois, iria somente tomar uns drinques e voltaria para a casa. Nada muito extravagante. Vai para o mesmo bar do fim de semana. Senta-se, outra vez, ao balcão. Pede seu drinque e toma-o lentamente, como se esperasse por alguma coisa que ela não conseguia admitir, talvez por não entender-se. Aquele acaba, pede outro, e assim sucessivamente até perceber que sua hora já estava passando. "Mas quem é esse cara do meu lado olhando para mim?" – pensa. Lembra-se que o rapaz, mais jovem do que ela, com certeza, havia saído para ir ao banheiro. Lembra-se que estava conversando com ele. E, desse modo, continua a conversa.



    Escrito por Fernando Paganatto às 21h51
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    Capítulo XLI

    Mais um fim de semana e Soraia estava estonteante. Havia decidido não mais ficar lamentando-se em casa e sairia, nem que fosse sozinha. Com roupas de pouco uso (e tecido), maquiagem perfeita, cabelos maravilhosos, ao custo de seu salário do mês, chaves do carro na mão e uma decisão no coração, ela sai com seu carro para a noite. Não queria preocupar-se com nada.

    Uma hora e trânsito depois, chega a um requintado bar no centro da cidade. A música toca dando um ar alegre ao ambiente. Ela senta-se ao balcão. Pede uma caipirinha. Na segunda, os homens já haviam ficado mais atraentes e também já se interessavam mais por ela. Quando ia para a terceira, um homem, aparentando a mesma idade de Soraia, senta-se ao seu lado. Cabelos grisalhos e fala de locutor, começam uma agradável conversa.

    Amílcar estava tossindo muito. Sua tosse carregada, que já durava algumas semanas, virou motivo de preocupação para seu colega. Em meio a uma bronca que levava, Amílcar confidencia ter tossido sangue no escritório. Seu amigo aconselha-o a imediatamente procurar um médico. Pela fala grave, Amílcar percebeu poder tratar-se de doença. Toma em mãos seu casaco e sai, sem palavrear mais nada com seu amigo, que entende a situação. No caminho, tem os mesmos pensamentos que teve na porta do posto médico há uns dias. Seu filho, sua futura mulher, a vida tranqüila. Mas se ele não fosse ao médico agora e, descobrisse uma doença, podia ser que ainda estivesse em tempo. Mas e se ele descobrir que não havia mais tempo para ele? Não, estava decidido. Tinha de ir.

    Ao chegar no pronto-socorro, pergunta por um especialista. Não haveria no momento. Vai passar por um clínico geral mesmo. Era melhor do que nada. E se estivesse algo fora do comum, ainda que não soubesse o que era, poderia lhe dizer. Cochila no banco de couro da sala de espera. Seu nome ecoa e ele, subitamente, desperta. Vai de encontro à enfermeira que encaminha-o à sala do doutor. Pensava ele. Era uma doutora. Ficou meio ressabiado, mas sentou-se, não sabia como cumprimentá-la, se com aperto de mão, um aceno, um abraço, um beijo, não tinha certeza. Resolveu chutar no boa-tarde somente. Antes que pudesse explicar o problema, exemplificou-o tossindo forte. Apontou que aquilo que lhe tirava o sono. Ela mandou que senta-se na maca, fez perguntas do tipo: "Você tem uma alimentação balanceada?", ou "Você fuma?", "Pratica esportes?", "Dorme o suficiente?". Ainda olhou sua garganta e ouviu sua respiração. Anotou, sem falar nada. Amílcar odiava esse gesto de suspense que os médico faziam. Ficavam em silêncio só para torturar o paciente. Já estava impaciente quando, entregando-lho a requisição, mandou que fosse até o raio-X tirar uma chapa do seu pulmão. Pediu também alguns outros exames que ele faria após. Achou estranho aquela bateria de coisas para um tossinha, mas era o plano de saúde quem pagava mesmo. Foi fazer.

    O domingo raiava e o barulho do ar condicionado acorda Soraia. Não era acostumada a tal, e sentia muito frio. Ao tentar, ainda sonolenta, enrolar-se melhor nas cobertas, sente uma companhia em sua cama. Pensa, em meio a um devaneio, ser Amílcar. Vira-se e dá-lhe um beijo no pescoço. O perfume não era o de Amílcar. Ela acorda. A cabeça lateja e seus olhos doem. Não, não era seu ex-marido e olhando em volta, espelhos. Aquela não era sua casa! E seu cabelo estava horrível! Tudo estava muito estranho, pensou estar em um pesadelo e foi até o pequeno banheiro trancou-se. Sentada sobre o vaso sanitário, começa a recobrar a memória perdida. Lembra que estava no bar, que bebeu um pouco além da conta, que chegou um homem, e eles bateram um papo, ela bebeu mais, passou a mão no tórax dele, ele nas pernas dela e agora, estava em um motel com um desconhecido no meio de algum lugar. Onde, ela não imaginava.

    Amílcar passara a noite em claro. Chorava. Descobrira, após passar o dia inteiro fazendo exames e contra-provas, que estava com tuberculose. Não seria coisa muito grave, explicou seu médico, apesar do forte impacto que a doença causava. O problema foi que, no meio dos exames, foi detectado um tumor em sua traquéia. Ainda fariam outra bateria de exames, para saber se era maligno ou benigno, mas era muito provável, pelo tamanho e pela forma, que estivesse com câncer. Se embebedou com o uísque mais caro de seu amigo mas, nem assim, conseguira pegar no sono. Só pensava em aproveitar cada segundo da vida. Chorou por tanta coisa que havia feito e deixado de fazer. Agora, sentia a vida correr veloz e ele, ficava para trás, como um competidor que cansara.



    Escrito por Fernando Paganatto às 19h28
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    Capítulo XL

    Durante seu expediente, por causa da eficiência com que faz o seu trabalho e ainda auxilia a seus colegas, Lívio é elogiado por seu gerente. Vê este momento como sendo propício para perguntar-lhe as chances de uma transferência. Vai conversar com seu superior. "Bom, se na loja preterida houver vaga, não há porquê não transferir. Mas por quê, Lívio? Está pensando em nos deixar já?" – indaga seu gerente. Feliz com a notícia, ele explica que talvez precisasse mudar-se para uma cidade do interior que, "coincidentemente", possuía uma loja da rede. Seu chefe lamentaria se isso acontecesse, mas diz que teria muita satisfação em indicá-lo para a filial em questão. Afinal, Lívio ajudara tanto em tão pouco tempo, seria ingratidão não ajudá-lo naquele momento. Ele agradece e volta ao serviço. Explode de felicidade por dentro, fazendo o dobro de seu trabalho naquele dia.

    Soraia, de sua sala, pode ver tanto Matilda sorridente – "Aquela vaca não larga o telefone.", pensa – como Xavier passando, em velocidade e sem encará-la, pelo corredor. Suas vendas haviam decaído tanto que seus ganhos diminuíram quase pela metade, só por causa das comissões perdidas. Não tinha mais vontade de fazer nada só conseguia se preocupar com o fato de ficar, mais uma vez, o fim de semana sozinha dentro de casa. Isso era um tormento para ela. Não, não queria que fosse dessa maneira. Se os outros estão se divertindo com suas namoradas, por que ela não podia também? Seu telefone toca e ela, olhando-o fixamente, espera que alguém atenda. Deixa passar mais uma oportunidade de vender. "Dane-se!" de hoje em diante seria uma nova Soraia, mais alegre, mais solta, mais hedonista. Acessa pelo seu computador a programação de eventos na cidade. Passa horas estudando e achando defeitos em cada um não escolhendo nenhum ao final. Mas resolve que sairia mesmo assim, ainda que sem rumo e sem objetivo. Sairia, bonita, cheirosa, chamativa. Para se divertir e nada mais. O resto do mundo que se acabasse.

    Amílcar, empalidecido, se analisa no espelho do banheiro. Estava fazendo seu serviço quando a irritante tosse lhe pegou desprevenido. Dessa vez preocupara-se pois havia manchado um dos papéis. Carimbou por sobre a mancha disfarçando-a e veio até o banheiro. Olha sob as pálpebras, lava seu rosto, examina a garganta. Não vê nada de muito anormal, a não ser aquela cor amarelo-desbotado de sua face. Não entende o que está lhe acontecendo, já estava se tratando com um forte xarope e suas crises não sumiam. Acha que dessa vez o melhor seria procurar um médico. Mas onde acharia um especialista? Pneumo-sei-lá-das-quantas? Não sabe. Também não sairia perguntando a todos se conheciam. Podiam, afinal, pensar que ele estava doente, o que não era o caso, definitivamente. Mas sabia que precisava achar algum. Vai procurar a relação de médicos do seu plano de saúde. Não lembra onde deixara.

    Durante sua parada para o café, Lívio não agüenta e liga para Amanda, que lhe atende com alegria. Ele conta a ela suas boas novas animando-a para seguir estudando. Se ela passasse no vestibular poderiam mudar-se para outra cidade, longe das maluquices de seus pais. Ele diz que passará por ali antes de ir para a casa. Não faria hora extra hoje, não seria necessário. Ela consente e se diz ansiosa já. Talvez sua mãe saísse, mas ela não disse nada para não causar desânimo em Lívio caso não acontecesse. Prefere esperar. De qualquer modo seria bom vê-lo.

    No cabeleireiro, Soraia gasta seu tempo e seu dinheiro para deixar-se irresistível. Ela precisava disso para seu ego, e se Lívio precisasse de alguma coisa que pedisse para seu pai. Onde já se viu uma pessoa se matar de trabalhar o mês inteiro e não gastar um tostão com ela mesma? Era muita injustiça, pensava Soraia. E depois outra, todos temos o direito de extrapolar de vez em quando. Esse era o discurso do cabeleireiro que ela usava para incentivar-se.

    Voltando para a casa, ainda preocupado com o episódio da tarde, Amílcar avista um posto de saúde local. Pára o carro em frente. Abre a porta e, em pé do lado de fora ainda, olha para a porta, refutando entrar. Pensa em seu filho, em sua futura mulher, na vida tranqüila que poderá vir a ter. Tudo antes de adentrar o posto. Seus pensamentos o amedrontam. Dá meia volta e rapidamente arranca com o carro. Era melhor despreocupar-se. Aquilo certamente era bobagem.



    Escrito por Fernando Paganatto às 21h07
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    Capítulo XXXIX

    Com o serviço da casa feito, Soraia agora não tinha mais com o que se preocupar a não ser os seus recônditos pensamentos. Imaginou aquela casa vazia como reflexo de seu futuro. Afinal, Lívio, ingrato, casaria e mudaria-se. Xavier era carta fora do baralho e não se imaginava vivendo com outro homem. Lembra de novo de seu ex-marido. Aquela lembrança de Amílcar era acompanhada e fortalecida por um enorme arrependimento. O horário de trabalho já estava quase para terminar. Resolve que sairia.

    Já Amílcar passou o dia inteiro cambaleando de sono. Sua tosse não lhe deixara dormir bem, e seu corpo parecia precisar de repouso. Dava "Graças" por estar já em final de expediente. Aquele xarope natural não havia tido o efeito esperado e a solução seria a compra de um mais forte. Sai de seu serviço arrastando-se até o carro. Passa em uma farmácia antes de dirigir-se até sua hospedagem. Ao chegar em sua provisória casa, reconhece o carro de Soraia estacionado. Aproxima-se e a porta se abre, saindo ela, com cara de misericordiosa, de dentro. Tinha em mente que, se fizesse o papel de boa e o perdoasse, seus erros seriam postos em segundo plano. Engana-se. Já no meio da conversa, ainda no meio da rua, Soraia passa da misericórdia à súplica. Implora para que retomassem o casamento, para que ele voltasse para casa, argumentando que Lívio precisava da figura paterna presente. Entre um tossir que mais o irritara, Amílcar mostra a Soraia a realidade da situação. Pede-lha que o deixasse em paz, pois o único assunto que haviam para tratar era a partilha dos bens. Sim, a educação de Lívio também. E depois, ele casaria-se novamente com outra mulher. Disse a ela que estava feliz. Mentiu, mas e daí? Não daria a razão para sua ex-mulher. Ela não merecia.

    Após o episódio, o pranto rola em ambos os lados. Soraia nervosa, dirige o carro arrependida ainda mais por ter ido procurá-lo. Já Amílcar, transforma o nervosismo em revolta e motivo para uma dose de uísque no bar do quarteirão de baixo.

    Enquanto seus pais encontravam-se, Lívio, com Amanda, flutuava em sonhos. Estavam planejando tudo. A faculdade fora escolhida por ela, que tentaria o vestibular ao final do ano, já não tão distante. Quanto a seu emprego, Lívio tentaria uma transferência pois a cidade escolhida tinha como atrativo uma loja da rede em que ele trabalhava. E seus esforço como funcionário talvez pesasse a favor de seus objetivos. Estava juntando um dinheiro e provavelmente não precisaria largar seu serviço. Amanda mudaria-se para estudar e ele, sem satisfação nenhuma. Seria perfeito. Ela está muito feliz com essa possibilidade. Fazer o curso que tem vontade morando com Lívio em outra cidade seria o paraíso. Começariam uma vida de casal efetivamente.

    Ao deparar-se novamente com a casa vazia, Soraia sente pena de si mesma. Lívio chega, cansado, e logo depara-se com sua mãe esbravejando na sala. Não dá muita corda a ela e vai se arrumar para dormir. Soraia percebe o desinteresse de seu filho e faz-se de conformada. Lívio toma banho despreocupado.

    O xarope em nada adiantara. Sua tosse só parecia ficar mais vívida a cada dose de remédio. Amílcar, aconselhado por seu colega, acha que o melhor seria procurar um pneumologista. Certamente era uma virose, mas queria parar com aquele incômodo involuntário. Conversa sobre o assunto com Matilda, ao telefone, que, com uma compreensão apostólica, comenta, por sobre a fala de Amílcar, sobre as novidades referentes ao casamento. Convites, bolo, seu vestido, tudo era muita novidade para ela e, portanto, motivo de comentário. Uma crise de tosse, que dura três minutos mais ou menos, ataca Amílcar durante a conversa fazendo-o querer trucidar Matilda e sua festa imbecil. Resolve desligar inventando a desculpa esfarrapada de que precisava usar o banheiro. Sente-se aliviado quando termina a conversa.



    Escrito por Fernando Paganatto às 23h37
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    Capítulo XXXVIII

    Após outro dia de serão na loja, Lívio está contente. Recebera o pagamento por suas atividades extras e sentia-se recompensado. Depositaria em uma poupança todo o dinheiro que ganhasse a mais, a fim de construir seus sonhos independentemente de seus pais. Pesava-lhe a indiferença sofrida por tanto tempo. Chega em sua casa, silenciosa. Ao fundo, somente o som fraco da televisão no quarto de Soraia. Vai direto para o banheiro banhar-se. A revolta de estar naquela casa era tamanha que nem ao menos sentir fome ele se permitia. Só pensava em dormir logo, para que acordasse logo, e fosse, então, um outro dia para que pudesse sair de lá.

    Lívio nem imagina o estado amorfo em que se encontra sua mãe. Não conseguia pegar no sono e precisou da ajuda de remédios para dormir. Dopou-se de tal forma a apagar com menos de cinco minutos de televisor ligado. Salivava sobre o travesseiro e, descoberta, recebia o frio da madrugada com indiferença. Mas, eram tantos pensamentos, tanta coisa para se arrepender. Como conseguiria dormir sem uma ajuda? Não encontrara solução. Não fora forte o suficiente para encarar seu próprio passado e assumi-lo como sendo "seu". Não. Nem todos conseguem. Era mais fácil o caminho dos remédios. Não esquecera do despertador. Acordaria normalmente, em seu horário habitual, como se nada de diferente houvesse ocorrido.

    Em meio a pequenos espasmos, Amílcar acorda seu amigo. Ele chacoalha-o tentando acordá-lo. Amílcar acorda. Pergunta o que ocorrera, sem ter ainda se localizado. Seu amigo lhe explica que estava várias vezes tendo pequenos ataques de tosses, meio reprimidas, mas que o estavam deixando louco. Amílcar não entende, afinal, havia tomado o bendito xarope. Explica isso a seu colega que lhe faz uma cara de preocupação. Toma mais uma dose do remédio e deita-se. Testaram para ver se o problema não resolveria com mais uma colherada, senão, compraria outro tipo.

    Amanda acorda já com o computador ligado. Pesquisa na internet os diversos tipos de cursos oferecidos por faculdades em outras cidades. Se um lhe interessava, buscava mais informações a respeito do local. Nem tomara café, ainda, mas a euforia era grande. Já tinha em sua mente um plano arquitetado para seu futuro, ou pelo menos, para o início dele. O primeiro passo seria encontrar um rumo certo. Depois começaria a, junto com Lívio, desembaraçar os problemas como vestibular, emprego, etc. Estava tão decidida e tão convencida de que seu namorado tinha vontades iguais que nada lhe importava mais do que encontrar as primeiras opções de "futuras casas" para eles. Decidiria, depois, junto dele.

    Sente, em contraste com seus calafrios, um calor tomar-lha o corpo por dentro. Isso a incomoda de tal modo a fazer com que Soraia acordasse. Meio zonza, olha o relógio. "O filho da mãe não despertou!" – repara assustada. Já dez horas de um dia de trabalho, não haveria desculpa que a fizesse ser perdoada. Resolve que o melhor era ficar em casa mesmo, cuidando da pequena ressaca que seus comprimidos causaram-lha, e inventando uma doença qualquer para seu chefe. Não sabe se aquela dor de cabeça era sua consciência. Vê as fotos de seu ex-marido. Sente sua falta. Chora. Se arrepende de muita coisa. Quer voltar no tempo.

    Lívio já está no colégio. Dorme, invariavelmente, em todas as aulas por alguns minutos. Está tão cansado, mas nunca sentira-se tão feliz. Completo. Sabia que estava indo atrás de um sonho, ao passo que vivia um outro. E ainda nem havia falado com Amanda, mas ela já acordara com ele. Seu pensamento não se desconcentrava dela um minuto, exceto quando ele cochilava. Quase babou na carteira escolar. Percebe que está pagando um mico enorme. Resolve que fugiria da aula no intervalo. Talvez fosse até a casa de sua namorada, dar-lhe um beijo, pois era razoavelmente perto de seu serviço. Não demoraria-se muito, mas precisava pelo menos de um beijo e um abraço quentinho naquela manhã. E precisava ouvir a voz aveludada dela. Melhor para Amanda que tinha tanto para lhe falar!



    Escrito por Fernando Paganatto às 22h51
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    Capítulo XXXVII

    Enquanto Matilda fala embasbacada ao telefone, Amílcar lê tranqüilamente as notícias do caderno "Cotidiano" de seu jornal. Não estava prestando atenção no que ela falava e sim, tentava ao máximo concentrar-se para buscar na memória o resultado do último sorteio da loteria. Achava que comparando os resultados de cada semana poderia haver uma fórmula matemática para ficar rico. Se cansa, levanta-se e se despede dela com um beijo na testa. Diz para que ela não se preocupasse, estava indo para sua provisória casa pois que seu amigo era de dormir cedo. Nem a espera terminar a ligação. Já foi.

    No caminho, Amílcar tenta contar quantos cigarros havia fumado naquele dia. Estava tentando parar, mas não queria, o que lhe causava um enorme conflito. Seu celular toca. Olha o número que chama e não reconhece. Atende. Era Matilda perguntado se estaria tudo bem. Amílcar não entende muito essa preocupação exacerbada das mulheres com o fato de as coisas necessitarem estar perfeitas. Nunca entendeu e nem nunca entenderia, afinal, julgava um comportamento insensato, até insensível. Ela fala-lhe meia dúzia de frases que se perdem com o vento que adentrava a janela do carro. Como não escutara muito bem, ele concorda com todas as afirmações, e até com algumas perguntas que ela lhe faz. Irritada, Matilda resolve desligar e ir dormir. Seria muito bom se Amílcar pudesse dormir agora, também. Mas até chegar ao cafundó onde seu amigo lhe hospedara era quase uma viagem.

    Lívio tem trabalhado como um louco e sua mãe nem notara seu repentino sumiço de casa. A loja estava vendendo muito bem e ele aproveitava para ganhar extras trabalhando além de seu horário. Havia muito serviço, que ele fazia com muito gosto. Tinha um objetivo e estava indo atrás dele. Amanda de vez em quando lhe telefona. Infelizmente a conversa tem de ser rápida pois ele precisa voltar ao serviço ou seus afazeres acumulam demais. Em uma dessas conversas, ela contara-lhe seu desejo de estudar em outra cidade, sem antes dizer que o queria junto. No momento, Lívio não deu muita importância para o assunto, achou ser muito sonhador. Mas durante o dia, por mais que o trabalho exigisse responsabilidade, seu pensar era todo voltado para aquela idéia, já não mais tão absurda, de Amanda.

    A solidão. Essa era toda a companhia de Soraia. Nem filho, nem marido, nem amante, nem ao menos um mísero cachorro foi-lha concedido. A televisão, desligada há dez minutos. Os programas de caráter emburrecedor jogaram-na em depressão tal que nem mesmo os próprios ela agüentava mais. Não entende como pôde, a vida, lhe dar tamanhos desgostos. Sente falta dele. Sente falta de todos. Sente, até, falta de si mesma, daquela Soraia que acordava todas as manhãs para preparar o café do marido. Olha sua casa, que é a mesma, mas a vê diferente. Paira no ar a diferença. As paredes, os móveis, os tapetes, os aparelhos, tudo era o mesmo, porém algo mudara. Ela não sabia o que era, nem ao menos imaginava que poderia saber, ou até, talvez, nem quisesse ver que, no fundo, ela sabia. Tinha saudades de seu ex-marido, de sua ex-vida. Muita. Quer telefonar, para Amílcar, para Xavier, para Lívio, mas não pode! É tão tarde já, o que pensariam? Como reagiriam? Não, ela não queria escutar palavras ofensivas, a noite já estava ofensiva demais para ela.

    Em seu quarto, Amanda relê os e-mail’s trocados com Lívio desde quando conheceram-se. Ele é tão perfeito a ela que nunca mais ela teve problemas que não pudesse resolvê-los. Parece que ele lhe dá sorte. Esperava que também desse sorte para ele, e acalma-se ao lembrar da felicidade com que conduziam (e construíam) a história deles. Se isso não era sorte: amar e ser amado, querer trabalhar e ter emprego, querer sonhar e ter asas, se tudo isso não fosse a sorte então errara-se a humanidade em sua descrição.

    O carro parado na avenida. Os apressados, que sempre têm motivo para estarem correndo, passam sem notar a figura pálida tentando restabelecer-se de um ataque de tosses que lhe tomou. Espanta-se com a quantidade de catarro que seu pulmão armazenara. Resolve que pararia de vez com o cigarro. Também, que passaria em uma farmácia para comprar um xarope, daqueles naturais "contra tudo". Não quer entrar em casa e acordar seu colega, que tão gentilmente cedera um espaço para que dormisse. Não seria, portanto, justo que ele o atrapalhasse mais ainda. Toma no carro mesmo.



    Escrito por Fernando Paganatto às 23h22
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    Capítulo XXXVI

    O fim de semana havia chegado e Soraia ainda não falara com Xavier. Evitou-o durante a sexta-feira inteira no escritório e nem sequer atendeu a seu telefone em casa. Não queria falar com ele de jeito nenhum. Não era mais uma garotinha ingênua. Enxergava as situações que ficavam a um palmo de seu nariz, já. Sabia o que estava se passando. Estava revoltada com ela mesma porque, além de tudo, sentia falta de Amílcar. Não tinha ânimo para sair de casa.

    Lívio chegava de seu primeiro sábado trabalhando. Estava cansado afinal, nunca havia mexido um palito dentro de sua casa. Mas estava muito feliz. A perspectiva de ganhar seu próprio dinheiro e livrar-se da humilhante situação de pedinte frente a seus pais já era satisfação suficiente. Encontra sua mãe ao sofá solitária, com cara de aborrecimento. Prefere não dizer nada, sabe que ela, de certo modo, merecia aquela situação. Brincava com sentimentos há muito tempo. Se até ele já percebera tal coisa, imagine quem foi envolvido em tais brincadeiras. A dor do coração é a mais cruel forma de repressão humana, porque é de si para si. E depois, Lívio estava cansado. Precisava de um banho quente e um bom café da tarde. Sentiu vontade de comer bolos, pães diversos, com café com leite, mas a cozinha estava às moscas. Quanto tempo desde a última visita de Soraia? Impossível dizer. Mas nem bolos, nem pães, nem leite, nem café, nem uma panela de comida figurava na geladeira. Ele suspira forte e vai tomar seu banho.

    No chuveiro, tem raiva daquilo tudo. Retoma ao pensamento todo o desprezo e a falta de atenção que recebera de seus pais durante toda sua infância e, pior, na adolescência. Chora. Não havia pedido para nascer, não tinha culpa por estar lá. Pensa em sua vida e em como poderia mudá-la. Não quer mais sofrer com tudo isso que, por mais que fisicamente nunca seus pais haviam lhe tocado, psicologicamente ele estava destruído, após tantas pancadas diárias. A vontade de fugir de casa não é descartada. Mas para onde? Não. Tem ainda o colégio para terminar. Ah, o colégio! Resolve que assim que terminar o ano letivo, pensará no que fazer. Não demoraria muito. Três meses, mas era o suficiente para que ele pudesse planejar seu futuro sem enlouquecer naquela casa. Precisa ligar para Amanda e saber a opinião dela. Imagina se ambos fossem morar juntos. Seria maravilhoso. Mais um passo para a consolidação do amor deles e, mais ainda, da vontade de permanecerem unidos.

    Amílcar e Matilda programam-se para seu casamento. Aquela aliança estava tirando o sono dele, por isso queria que tudo acabasse logo para que pudesse deitar e, sem pensar em nada, descansar. Ela está empolgada com tudo aquilo, afinal, era seu primeiro casamento. Amílcar parecia um pouco desanimado, para ele não era novidade e, logo hoje que Matilda tanto queria discutir, uma tosse lhe tomou o espírito, deixando-lhe sem vontade para nada. "Esse tempinho filho da mãe" – pensou. Mas ela nem dá muita bola ao estado paciente de Amílcar. Se tivesse que decidir tudo, a data, o local, seu vestido, os convites, o bolo, enfim, sozinha, decidiria com gosto. Afinal, a última palavra seria dela mesmo.

    No telefone Lívio conta a sua namorada suas vontades. Amanda, por sua vez, acompanha-o em raciocínio e imaginação. Imagina os dois juntos, em uma casa longe de suas conflituosas famílias, podendo, enfim, construir uma família decente, sem brigas e desentendimentos. Tudo isso já deixara-lha descontente certa época da vida, mas agora, servia de estímulo para uma mudança. A sua mudança. Apoia Lívio. Não só apoia como reforça suas idéias e concorda com muitos planos dele. Não sabem o que se seguirá daqui para a frente, mas uma coisa é certa: terminado o colegial, muita coisa mudaria em suas vidas, menos o amor que ambos sentiam reciprocamente.

    Xavier tenta entender o porquê de não ter falado com Soraia por tanto tempo. Será que ela estava brava com alguma coisa? Mas com o que? Será que havia descoberto algo? Mas como? Resolve ligar para Rita, sua "amiga" da faculdade:

    - Alô, Rita? É Xavier.

    - Oi, gato. Tudo bem?

    - Mais ou menos. Você lembra de alguma coisa estranha no dia em que veio aqui? Qualquer coisa, ao entrar, enquanto estava aqui, ao sair... Qualquer detalhe ajuda.

    - Não me lembro...

    - Tudo bem, valeu.

    - Ah, enquanto você tomava banho alguém te ligou. Duas vezes.

    - E você atendeu? Quem era?

    - Não sei, desligou na minha cara as duas vezes.

    Xavier fica em silêncio. Despede-se de Rita. A probabilidade de ter sido Soraia que ligara era grande. O que falaria a uma experiente mulher? Como explicaria? Se fosse uma garotinha, ainda enganá-la-ia, mas uma mulher vivida, não. Na escola da malícia, ela era sua professora. Sente que a sujeira havia se espalhado.



    Escrito por Fernando Paganatto às 09h07
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    Capítulo XXXV

    O escritório do advogado de Amílcar é discreto. Perfeito para receber reuniões como aquela. As audiências haviam, pelo menos por enquanto, sido descartadas em troca de um acordo amigável sobre os bens acumulados pelo casal. Quando Soraia chega, ele já está lá, sem Matilda por perto. Porém, conversa com seu advogado somente, e nem ao menos cumprimenta-a. Ela percebe que a dor da traição ainda toca-lhe. Seu advogado também chega e agora, com os quatro integrantes, a conversa já poderia iniciar.

    Lívio sai do colégio e toma um ônibus com rumo contrário à sua casa. Bem que queria ir para a casa de Amanda, mas tinha um compromisso inadiável. Está indo para o centro da cidade. A loucura do trânsito, o ir e vir incessante de pessoas de vários tipos e jeitos, tudo isso lhe fascina. Vê seu ponto passando pela janela do ônibus. "Era aqui que eu tinha que descer." – pensa. Sinaliza para parar. Presta atenção no caminho que faz para poder voltar. Até que a próxima parada não estava tão longe então, pôde continuar animado. Anda a passos rápidos, apesar de estar adiantado, mais por euforia do que por pressa. Chega à loja de departamentos. É grande, movimentada, lotada em uma simples tarde de dia útil. Imaginou como seria no fim de semana. Sorri notando que tudo no centro era como ele mesmo, superlativo. Os prédios, as lojas, o movimento, o trânsito, o "dogão", as super-promoções, tudo, apesar da qualidade duvidosa, era vistoso, chamativo. Sente-se bem na multidão. Vai até uma vendedora e pede-lha informação. Ela, gentilmente, aponta-lhe a direção. Ele agradece e vai. Sobe alguns degraus e depara-se com uma porta: "Somente pessoal autorizado". Dois toques. Abrem-lhe.

    - Oi, meu nome é Lívio, me pediram pra vir aqui pra fazer uma entrevista.

    - Ah, tá. Senta um minutinho que a Bianca já te atende. – diz a recepcionista, com uma voz desafinada.

    A briga está rolando solta. Não há argumentos de ambos advogados que façam o ex-casal entrar em acordo. Os carros, a casa, o dinheiro nas contas bancárias, tudo era motivo para litígio. Nenhum dos dois queria ceder e isso dificultava muito um acordo amigável. Os advogados perdem a paciência. Perguntam-lhes se querem mesmo acordar ou se preferem levar a audiências a disputa. Os dois ficam calados. Amílcar pede que os advogados se retirem por um momento. Quer conversar, em particular, com Soraia. Assim fazem. Ela a encara, desanimado. Ela o olha com uma ternura despreocupada. Um misto de tristeza e dispersão. Amílcar fala, muito. Dá várias opções de partilha, mostra seus sofrimentos, seus constrangimentos, seu ponto de vista e espera, agora, resposta de sua ex-mulher. Mas ela não prestou atenção em sua fala. Estava relembrando de tantas coisas. Imaginando como seria o futuro se fosse ao lado dele. O que teria acontecido se tivesse agido de outra forma.

    O telefone de Amanda toca. Ela atende e surpreende-se com a alegria de Lívio. Havia conseguido o emprego de auxiliar administrativo naquela grande loja de departamentos! Estava tão feliz vislumbrando receber seu primeiro pagamento, até reflete um pouco após lembrar que faltava-lhe somente o mês inteiro, mas isso não o desanima. Amanda fica tão contente quanto ele mesmo. Satisfaz-lha a alegria de Lívio. O coração palpita mais rápido! Ambos excitam-se com a adrenalina fabricada pela discussão sobre o futuro deles. Sonham maravilhas juntos e, aquele emprego, era somente o começo de tudo o que conseguiriam juntos.

    Soraia chega em casa, triste. Não queria que aquela reunião tivesse terminado da forma com que terminou, mas acabou sendo inevitável. Amílcar estava muito intransigente em sua intolerância a ela. Não podia, também, aceitar qualquer acordo que lha deixasse de mãos vazias. Não seria justo com ela, menos ainda com o filho deles que morava sob o mesmo teto. Nem voltou ao escritório. Resolveu que tiraria o resto do dia de folga, afinal, havia conseguido aquela dispensa, então, por que não aproveitar? Mas estava, mesmo, era desanimada. Não assistiu à televisão em todos os canais ao mesmo tempo. Só esperava o horário de seu expediente acabar. Adormece no sofá. Não se escutou de Lívio nem um sussurro. Um sonho estranho lhe vem à mente. Corre solitária por uma estrada, que sabia conhecer mas não reconhecia, com muita neblina atrapalhando-lha a visão. Quanto mais corre e não acha ninguém, mais desespera-se. Chama por seu filho mas só escuta as risadas. Tem raiva dele, xinga-o, culpa-o. O desespero, certo momento, é tanto que a acorda. Assustada. "Que sonho maluco..." – diz baixinho. Olha a hora. Já havia passado muito do horário de Xavier estar em casa. Pega o telefone e liga. Precisava desabafar com alguém. Demora a atender. Atende, ofegante, uma moça. Soraia pensa ter sido engano e desliga rapidamente, sem nem responder ao alô. Liga novamente, dessa vez, cuidando para que seu dedo toque precisamente os números corretos. É a mesma mulher que novamente atende.



    Escrito por Fernando Paganatto às 21h52
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    Capítulo XXXIV

    Enfim, sua casa novamente. A mochila pesava em suas costas. Já havia deixado Amanda e agora Lívio só pensava em um banho quente e em sua cama. O dia foi maravilhoso, de muito sol, o que proporcionou-os um ótimo domingo na praia. Mas sente-se moído, afinal, levantara às cinco e meia da manhã e já passava das nove da noite. Entra em casa e, logo na sala, leva um susto. Sentado, no sofá, sem camisa e fumando, pés por sobre a mesinha de centro da sala e assistindo a um vagabundo programa na televisão estava Xavier. Lívio cumprimenta-o com um inconformado boa noite. Já havia conhecido-o certa vez em que trouxe Soraia para casa e entrara para tomar um café, mas achou tal intimidade estarrecedora. "Onde está minha mãe?" – pergunta. "No banho." – responde Xavier, com naturalidade e sem desviar os olhos do aparelho de tevê. Realmente escutava-se o barulho do chuveiro e pensou que não havia mais o que se fazer a não ser trancar-se em seu quarto. Precisava ligar para Amanda. "Avisa ela que eu cheguei, por favor." – pede para o inoperante rapaz e dirige-se a seus aposentos.

    Caminhando pelo shopping, Matilda chama a atenção de Amílcar para a joalharia. Ele, a contragosto entra acompanhando-a. Logo um astucio vendedor aparece frente a ela que, sem pensar muito, pede para ver os modelos de alianças de ouro que ele tinha. Em menos de dez segundos estavam os três sentados à uma delicada mesa de vidro com a bandeja de feltro repleta de jóias lindíssimas e, proporcionalmente, caras. Os olhos de Matilda brilham conforme a reluzência das pedras preciosas dos anéis que, um por um, experimenta. "Olha este, amor!" – diz a Amílcar, que só balança a cabeça concordando. Ela não sabe qual levar. Está indecisa. Pensa em qual faria mais sucesso, qual seria mais noticiado em sua família, que tanto lhe cobravam por um casamento decente e agora teriam de se curvar à qualidade do marido que tinha. Resolve escolher, dentre as de seu gosto, a mais cara. Já que era para mostrar para aquela "gentinha" sua felicidade, que fosse com algo valioso. Amílcar tenta conversar com Matilda. Quer persuadi-la a comprar em um outro dia as alianças, talvez com o intuito de que ela escolhesse uma mais barata. Mas o olhar de indignação e desprezo que ela lança-lhe é suficiente para que ele sinta-se tão pressionado que compra, mesmo sabendo que atolaria-se em uma enorme dívida. Está, a partir de agora, decretado "estado de aborrecimento" até o final da noite.

    No telefone, Lívio conta a sua namorada o despautério que presenciara assim que adentrara sua casa. Ela, atônita, escuta e, mentalmente, condena Soraia. Não entende como uma mulher que tinha a vida perfeita, joga tudo ao lixo por uma aventura com um garotão babaca. Sente pena de Lívio e solidariza-se com a indignação dele. Falam durante minutos sobre o assunto, concluindo para si mesmos que casamento deveria ter amor, e o amor era algo muito maior do que pequenas insatisfações que viessem com a vida. O amor não exclui os problemas, mas também não tira-lhes as soluções. Ao desligar, Lívio sente-se mais relaxado. Até culpa um pouco seu pai por aquela situação. Põe a cara para fora do quarto. Vê o banheiro livre e sua mãe já na sala, recostada no corpo suado de Xavier. Antes de deixar as náuseas lhe tomarem, em um pé adentra o banheiro para tomar seu banho. Não quer nem encarar Soraia nesse momento.

    Ela aproveita a "solidão" dos dois para se deleitar no jovem corpo do rapaz. As mãos, irrequietas, acariciam de cima abaixo o abdômen de Xavier que não reage a nenhum estímulo. Seu único gesto é o de por e tirar o cigarro da boca. Era como se estivesse em um lugar muito distante. Soraia nem percebe. Está tão entretida em suas fantasias sexuais que o resto do mundo lhe parece ter sumido. Não ouve nem o barulho do banho de Lívio. Ainda não se inteirou da presença de seu filho na casa.

    Xavier está indo embora quando Lívio termina seu banho. Ainda escuta-os despedirem-se e decide conversar com sua mãe. Vai para o corredor onde Soraia assusta-se ao encontrá-lo. Seu coração sobe à garganta com palpitações ligeiras. Ele balança a cabeça e vai para seu quarto vestir-se. Ela, empalidecida com a revelação de que Lívio estava lá todo aquele tempo, volta para o sofá onde senta-se ainda sem piscar os olhos. Seu filho senta-se a seu lado. Ela não o encara. "Eu gostaria que ele fosse mais respeitoso." – pede a Soraia. Ela não deixará que um moleque mande em sua própria casa: "Ele é meu namorado e vai ficar do jeito que ele quiser na minha casa." – ela responde. Lívio entende o recado. Diz "Tudo bem." a ela e volta para o quarto. Senta-se na cama ficando de frente ao seu guarda-roupas. O pensamento vai longe. Tem vontade de arrumar uma mala com todas suas roupas.



    Escrito por Fernando Paganatto às 21h55
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    Capítulo XXXIII

    Hoje é o dia em que Soraia e Xavier completam um mês de relacionamento, ou, como ela gosta de dizer: "namoro". Ela espera alguma coisa. Tenta não alimentar expectativas adolescentes, acha que já passara da idade dos mimos apaixonados, mas, no fundo, nutre uma grande ansiedade. Acorda já imaginando ouvir o barulho do telefone. Não era. Provavelmente sonhara enquanto na fase terminal do sono, e acordara assustada. Não com o barulho, mas com sua própria pressa. Ao perceber que não era a campainha do telefone, acha graça de tudo aquilo e levanta-se como se fosse um dia dos mais normais. Está indo ao trabalho, já. Escutando românticas músicas norte-americanas, imagina encontrando-se com um arranjo floral no escritório. Imagina o que faria com Xavier lá mesmo! Sente vergonha de pensar certas coisas e ri de si mesma. Ao entrar porta adentro da empresa, com altivez, soberba até, olha a todos por cima. Chega em sua sala e não encontra o imaginado presente. Quase deixa-se levar pelo desânimo, mas lembra que não dá mais atenção para essas "coisinhas". Somente após duas horas de serviço corridas viu, pela primeira vez no dia, Xavier. Passou como um raio pelo corredor. Ela não gosta nada daquela atitude. Vai até a porta e espera que ele volte. E lá vem o estagiário. Olha para ela, sorri: "Agora sim" – pensa Soraia – "É agora que ele vai me presentear." – ela retribui o sorriso. Aproxima-se dela, beija-lhe a face e passa, sem palavras a mais do que o "bom dia". Estarrecida, ela olha no calendário para certificar-se da data. Não havia errado, era hoje mesmo! O sangue ferve-lha esquentando suas pálpebras secando qualquer vestígio de lágrimas que poderia surgir por lá. Olha para todos seus objetos